Sobre

Desde o início do novo milénio, encontra-se cada vez mais a paisagem, como conceito e tema, nos mais diversos ramos do saber. Assim, já não se trata apenas de um uso poético, artístico, geográfico ou arquitectónico do conceito, mas de uma expansão de considerações, que no seu todo podem ser compreendidos como um abrangente pensar da paisagem.

Essa atenção crescente perante o conceito de paisagem ocorre em paralelo com um conceito para uma nova época planetária, o assim chamado Antropoceno, que descreve a tremenda influência da humanidade sobre a transformação da Terra.

Ambos os conceitos são ao mesmo tempo metáforas para uma relação fundamentalmente nova perante a Terra e para uma dissolução progressiva da diferenciação entre Natureza e Cultura, que está em execução desde o início da Idade Moderna e que se encontra em estreita relação com o nascimento da técnica moderna e do desenvolvimento do capitalismo.

A descoberta cada vez mais ampla da encoberta e opaca Natureza pelo humano e a apoderação do planeta inteiro por uma única forma de vida e assim a completa antropogenização da Terra, são características fundamentais da Idade Moderna.

O conceito da paisagem, que na história do Ocidente é primeiramente percebido por meio da pintura paisagista, e que é reivindicado por esta durante séculos, recebe no percorrer da industrialização e da formação do capitalismo como ideologia dominante, um significado mais englobante.

Com a noção crescente de destruição das aparências naturais e dos espaços vitais de outras formas de vida, por meio do progresso industrial e técnico, o cuidado pela paisagem, compreendida como um cuidado pela natureza, torna-se o centro dos movimentos de proteção da natureza e da proteção ambiental emergente. Simultaneamente, o conceito de paisagem como metáfora de uma relação moderna com o mundo, de uma moderna imagem do mundo, é acolhido na filosofia e aparece no percorrer do século 20 cada vez mais como um significante conceito filosófico.

A designação Filosofia da Paisagem, originalmente usada por Georg Simmel num artigo publicado em 1913, será compreendida com a 1ª Conferência Internacional sobre a Filosofia da Paisagem, do mesmo modo como no anterior projecto de pesquisa Filosofia e Arquitectura da Paisagem do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, como uma disciplina que não se defronta apenas com temas estéticos e ecológicos.

A Filosofia da Paisagem abre um campo, ou mesmo uma paisagem, em que se cruzam aspectos e métodos teóricos, estéticos, éticos, metafísicos, antropológicos, arquitectónicos e políticos, que oferecem uma perspectiva sobre um atual e futuro cuidado pela Terra como uma biosfera até agora única e sempre singular.

Com isso, será em primeiro sublinhado que a extensão da paisagem, como conceito e metáfora, não se explica por meio da pintura paisagista e não se deixa compreender apenas por meio da explicação das aparências naturais e culturais.

A Filosofia da Paisagem compreende paisagem não apenas como a representação moderna da intersecção da Natureza com a Cultura, mas muito mais abrangente e obviamente menos abstrata, como a intersecção de necessidades e exigências verticais e horizontais, como a interação indiscernível entre transcendência e imanência, na qual imanência não significa apenas o térreo, físico e material, e transcendência não significa apenas o atmosférico, metafísico e imaterial.

Pelo contrário, mostra-se antes que imanência não é a contraparte de transcendência, que não se encontra aqui aquilo que sobrevoa e ali o que permanece em casa, mas que da casa mesmo parte aquilo que sobrevoa, que da imanência surge a transcendência, assim como o transcendente surge na contemplação de uma paisagem percorrida pelas nuvens e que é atravessada pelas cores de um pôr do sol singular.

Paisagem, por essa razão, também não é simplesmente ambiente, porque desde sempre ultrapassa qualquer ambiente e porque nela se encontram os mais diversos ambientes. Ela também não é apenas um território político ou étnico, porém a múltipla face da terra. Paisagens são visualizações e formas de vida, são os múltiplos rostos da terra, sujeitos das suas próprias mudanças de disposições, que por si albergam uma multiplicidade de formas de vida e que por isso necessitam ser preservadas.

Isso não exclui que paisagens, como o terceiro entre os conceitos abstratos de Natureza e Cultura, são espaços moldados, que estão formados por meio da influência do tempo, das condições meteorológicas e das actividades de origem humana, animal e vegetal e que no futuro serão cada vez mais modificadas por meio da actividade e inatividade humana e dos seus dispositivos técnicos.

O conceito de paisagem é ponto de partida de uma nova disciplina filosófica designada Filosofia da Paisagem, que aqui é compreendida como um contributo para desconstruir o antropocentrismo sustentado no Antropoceno, isto é, desprendê-lo da sua dinâmica catastrófica e abri-lo para outras necessidades.

Filosofia da Paisagem não é Ecologia, porém é reivindicada pelo ecológico. Todo pensamento ecológico, que se designa como ecológico ainda é relacionado com o pensamento antropocêntrico. A doutrina ou a linguagem (logos) da casa ou da família (oikos), que se ocupa com a preservação e conservação sustentável da biosfera e que avista os ambientes dos seres vivos sempre partindo do ambiente humano, é extemporâneo numa época em que a visão e a acção antropocêntrica são postas em questão no seu conjunto.

A Terra não é casa nem ambiente, é antes a reunião de incontáveis paisagens e formas de vida, que não permanecem nos seus próprios ambientes, mas que se defrontam com outros ambientes e se encontram em inter-relação com outros ambientes.

O mundo como Terra significa a reunião e abertura máxima de incontáveis paisagens e formas de vida, que coexistem uma com a outra e que não são dominadas por uma só paisagem nem dominadas por uma forma de vida específica.

Entretanto, paisagens também não estão simplesmente dadas assim que a soma de todas as paisagens oferecem uma imagem nítida da Terra. Paisagens não são simplesmente dadas porque se modificam no percorrer dos tempos e através da passagem das mais diversas formas de vida. Elas são visualizações do exterior e aberturas para o interior; precisam ser percorridas e apreendidas sempre novamente.

Perceber a paisagem significa perceber a Terra, sem restringi-la na sua totalidade e no seu fechamento apenas às necessidades humanas, isto é, sem cair nas aporias dos conceitos de Natureza e Cultura.

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Since the onset of the new millennium, landscape, as a concept and theme, is increasingly present in the most diverse fields of knowledge. As such, it is not just a matter of a poetic, artistic, geographical or architectonical use of the concept, but a growth of considerations, that in their whole may be understood as a broad reflection on landscape.

This growing attention to the concept of landscape occurs in parallel with the emergence of a concept for a new planetary era, the so-called Anthropocene, that describes the tremendous influence of mankind in the transformation of the Earth.

Both concepts are simultaneously metaphors for a fundamentally new relation with the Earth and for a progressive dissolution of the differentiation between Nature and Culture, which occurs since the beginning of modern age and that is in close relation with the birth of modern technique and the development of capitalism.

The discovery, ever-broader, of Nature covert and made opaque by the human and the conquest of the whole planet by a single life-form and thus the total arthropization of the earth, are fundamental characteristics of the modern age.

The concept of landscape, that in western history was firstly understood through landscape painting, being, for centuries, claimed by it, receives a more encompassing meaning in the tread of industrialization and formation of capitalism as dominant ideology.

With the growing notion of the destruction of natural appearances and vital spaces of other life-forms, by means of the industrial and technical progress, the care for the landscape, understood as a care for nature, becomes the center of emerging nature conservation and environmental protection movements. Concurrently, the concept of landscape as metaphor of a modern relation to the world, of a modern image of the world, is well received in philosophy and is increasingly seen throughout the 20th century as a significant philosophical concept.

The designation “Philosophy of the Landscape”, originally used by Georg Simmel in an essay published in 1913, is taken by the 1st International Conference of Philosophy of Landscape (as it was understood in the project Filosofia e Arquitectura da Paisagem of the Center of Philosophy of the University of Lisbon), as a discipline that concerns more than aesthetic or ecological themes:

The Philosophy of the Landscape understands landscape not only as a modern representation of the intersection between Nature and Culture, but as a much wider and less abstract: the intersection of vertical and horizontal needs and demands, as the indiscernible interaction between transcendence and immanence, in which neither immanence means only the earthly, physical or material, nor transcendental stands solely for the atmospheric, metaphysical and immaterial.

On the contrary, it is shown that immanence is not the counterpart of transcendence, that here one does not find that which flies through and there what remains at home/indoors, but that what flies through departs from home, from immanence emerges transcendence, just as the transcendent emerges in the contemplation of a landscape travelled by clouds and traversed by the colors of a unique sun-set.

Landscape, for this reason, is also not simply the environment, because it has always surpassed any environment and because in it one can find the most diverse environments. Landscape is also not just a political or ethnical territory, but the multiple surface of the earth. Landscapes are visualizations and forms of life, are the multiple faces of the earth, subject of their own changes and dispositions, that shelter by itself a multiplicity of forms of life and for that reason must be preserved.

This does not exclude that landscapes, as the third between the abstract concepts of Nature and Culture, are molded spaces, formed through the influence of time, weather conditions and activities with human, animal and vegetal origin and that in the future will be more and more modified through human activity and inactivity and their technical devices.

The concept of landscape is the starting point of a new philosophical discipline designated as the Philosophy of the Landscape, here understood as a contribution to deconstruct the anthropocentrism sustained in the anthropocene, that is, release it from its catastrophic dynamic and open it to other needs.

The Philosophy of the Landscape is not Ecology, however, it is claimed by the ecologic. All ecologic thought, that is termed ecologic is still associated with anthropocentric thought. The doctrine or the language (logos) of the home or family (oikos), concerned with the sustainable preservation and conservation of the biosphere, sees the environments of living beings always from a human environment, is extemporaneous in a time when both anthropocentric vision and action are put in question on the whole.

The Earth is neither house nor environment, but rather the reunion of countless landscapes and forms of life that do not remain in their environments but that face other environments and are in inter-relation with other environments.

The world as Earth means the reunion and widest opening of countless landscapes and forms of life that coexist with one another, neither dominated by a single landscape nor by a specific life form.

In the meanwhile, landscapes are also not simply given as soon as the sum of all landscapes offers a clear image of the Earth. Landscapes are not simply given because they are modified in the passing of time and the passage of the most varied life forms. They are visualizations of the outside and openings to the inside; they must be tread and apprehended always anew.

To understand landscape means to understand the Earth, without restricting it in its totality and without confining it to human needs, that is, without falling into the aporia of the concepts of Nature and Culture.

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Seit dem Beginn des neuen Jahrtausend ist die Landschaft, als Begriff und als Thema, in den verschiedensten Wissensgebieten immer häufiger anzutreffen. Dabei handelt es sich nicht mehr nur um eine poetische, künstlerische, geographische oder architektonische Verwendung des Begriffs, sondern um eine Ausweitung von Überlegungen, die in ihrer Gesamtheit als ein umfassendes Denken der Landschaft aufgefasst werden können.

Diese wachsende Aufmerksamkeit gegenüber dem Landschaftsbegriff vollzieht sich parallel zu einem Begriff für eine neue planetarische Epoche, das sogenannte Anthropozän, die den gewaltigen Einfluss der Menschheit auf die Gestaltung der Erde beschreibt.

Beide Begriffe sind zugleich Metaphern für ein grundlegend neues Verhältnis zur Erde und für eine fortschreitende Auflösung der Unterscheidung von Natur und Kultur, die seit dem Beginn der Neuzeit im Vollzug ist und die mit der Geburt der modernen Technik und der Entwicklung des Kapitalismus in enger Verbindung steht.

Die immer weiter ausgreifende Entdeckung der unentdeckten und opaken Natur durch den Menschen und die Übernahme des gesamten Planeten durch eine einzige Lebensform und somit die totale Anthropogenisierung der Erde sind Grundzüge der Neuzeit.

Der Begriff der Landschaft, der in der abendländischen Geschichte zunächst vermittelt durch die Landschaftsmalerei wahrgenommen wird und von dieser über Jahrhunderte hinweg in Anspruch genommen wurde, erhält im Verlauf der Industrialisierung und der Herausbildung des Kapitalismus als herrschende Ideologie eine umfassendere Bedeutung.

Mit dem wachsenden Bewusstsein der Zerstörung der natürlichen Erscheinungen und der natürlichen Lebensräume anderer Lebensformen durch den industriellen und technischen Fortschritt, wird die Sorge um die Landschaft, verstanden als eine Sorge um die Natur, zum Mittelpunkt der Naturschutzbewegungen und des aufkommenden Umweltschutzes. Zugleich wird der Begriff der Landschaft als Metapher für ein neuzeitliches Weltverhältnis, ein neuzeitliches Weltbild, in die Philosophie aufgenommen und taucht im Verlauf des 20. Jahrhundert immer öfter als bedeutender philosophischer Begriff auf.

Die Bezeichnung Philosophie der Landschaft, ursprünglich von Georg Simmel für einen im Jahr 1913 erschienen Aufsatz verwendet, wird mit der hier vorgestellten 1. Internationalen Konferenz über die Philosophie der Landschaft – ebenso wie zuvor mit dem Forschungsprojekt Philosophie und Architektur der Landschaft des Zentrums für Philosophie der Universität von Lissabon – als eine Disziplin verstanden, die sich nicht allein mit ästhetischen oder ökologischen Themen auseinandersetzt.

Die Philosophie der Landschaft eröffnet ein Feld, oder selbst eine Landschaft, in der sich theoretische, ästhetische, ethische, metaphysische, architektonische, anthropologische und politische Aspekte und Methoden kreuzen und einen Ausblick auf eine gegenwärtige und zukünftige Sorge um die Erde als bisher einzige und stets einzigartige Biosphäre geben.

Zuerst wird dabei unterstrichen, dass der Umfang der Landschaft, als Begriff und Metapher, sich nicht einfach durch die Landschaftsmalerei erklären und nicht nur durch die ästhetische Betrachtung der natürlichen und kulturellen Erscheinungen erfassen lässt.

Philosophie der Landschaft versteht Landschaft nicht allein als neuzeitliche Repräsentation der Überschneidung von Natur und Kultur, sondern viel umgreifender und offensichtlich weniger abstrakter, als Überschneidung vertikaler und horizontaler Notwendigkeiten und Bedürfnisse, als das ununterscheidbare Zusammenspiel von Transzendenz und Immanenz, wobei Immanenz nicht nur das irdische, physische, materielle und Transzendenz nicht nur das atmosphärische, metaphysische und immaterielle bezeichnet.

Es zeigt sich vielmehr, dass Immanenz nicht der Gegensatz von Transzendenz ist, dass nicht hier das Überfliegende und dort das Einheimische aufzufinden ist, sondern das im Einheimischen selbst das Überfliegende aufsteigt, das in der Immanenz die Transzendenz auftaucht, so wie in der Betrachtung einer von Wolken durchzogenen Landschaft, die von den Farben eines einzigartigen Sonnenuntergangs durchströmt wird.

Landschaft ist auch aus diesem Grund nicht einfach Umwelt, da sie immer schon über jede Umwelt hinausgreift und weil in ihr die verschiedensten Umwelten aufeinander treffen. Sie ist auch nicht nur ein politisches oder ethnisches Territorium, sondern das vielfache Angesicht der Erde. Landschaften sind Ansichten und Lebensformen, sind die vielen Gesichter der Erde, die ihrem eigenen Stimmungswechsel unterliegen, selbst eine Vielzahl von Lebensformen beherbergen und deshalb bewahrt werden müssen.

Dies schliesst nicht aus, dass Landschaften, als das Dritte zwischen den abstrakten Begriffen Natur und Kultur, gestaltete Räume sind, die durch den Einfluss der Zeite, durch die Witterung und durch die menschlichen, tierischen und pflanzlichen Aktivitäten geformt und in Zukunft immer mehr durch die Tätigkeit und Untätigkeit des Menschen und seiner technischen Dispositive verändert werden.

Der Begriff der Landschaft ist Ausgangspunkt einer neuen philosophischen Disziplin mit der Bezeichnung Philosophie der Landschaft, die hier als ein Beitrag verstanden wird, um den im Anthropozän behaupteten Anthropozentrismus zu dekonstruieren, dass heisst ihn aus seiner katastrophischen Dynamik zu lösen und anderen Notwendigkeiten zu öffnen.

Philosophie der Landschaft ist nicht Ökologie, jedoch vom ökologischen Denken in Anspruch genommen. Jedes ökologische Denken, dass sich als ökologisches Denken bezeichnet, ist immer noch dem anthropozentrischen Denken verbunden. Die Lehre oder Sprache (logos) des Hauses oder der Familie (oikos), die sich der nachhaltigen Schonung und Bewahrung der Biosphäre widmet und die Umwelten der Lebewesen immer schon aus der Sicht der menschlichen Umwelt betrachtet, ist unzeitgemäss in einer Epoche, in der die anthropozentrischen Sicht- und Handlungsweise insgesamt in Frage steht.

Die Erde ist weder Haus noch Umwelt, sondern Versammlung unzähliger Landschaften und Lebensformen, die nicht in ihren eigenen Umwelten verharren, sondern sich anderen Umwelten aussetzen und sich mit anderen Umwelten in Wechselwirkung befinden.

Die Welt als Erde bedeutet die maximale Vereinigung und Öffnung unzähliger Landschaften und Lebensformen, die miteinander koexistieren und die nicht durch eine vorherrschende Landschaft oder eine vorherrschende Lebensform bestimmt wird.

Aber Landschaften sind auch nicht einfach gegeben, so dass etwa die Summe aller Landschaften ein deutliches Bild der Erde abgeben. Landschaften sind nicht einfach gegeben sondern verändern sich im Verlauf der Gezeiten und im Durchgang der verschiedensten Lebensformen. Sie sind Ansichten des Aussen und Öffnungen in das Innere; müssen immer wieder durchgangen und stets erneut erlernt werden.

Landschaft wahrnehmen bedeutet die Erde wahrnehmen ohne sie in ihrer Gesamtheit und Geschlossenheit ausschließlich auf die menschlichen Bedürfnisse einzuschränken, dass heisst ohne den Aporien der Begriffe Natur und Kultur zu verfallen.